Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

2666

A literatura é um ofício perigoso.

 

 

«Foi após a sua morte que se estabeleceu a constelação Roberto Bolaño, depois de 10 frenéticos anos a escrever, como se o tempo estivesse a acabar. E ele pressentia que estava. Mas era irremediável que a sua escrita fosse iluminada: ela revelava uma capacidade única de criar vozes muito singulares e muito poderosas, muitas vezes com uma complexidade enorme.» 

 

Fernando Sobral, no Jornal de Negócios, hoje.

A certeza porém foi que nem Pelletier nem Espinoza visitaram Norton no seu quarto nem uma única vez, pelo contrário,o quarto que Espinoza visitou, uma vez, foi o de Pelletier, e o quarto que Pelletier visitou, duas vezes, foi o de Espinoza, entusiasmados como crianças perante a notícia que se espalhava mais depressa do que um rastilho de pólvora, do que uma bomba atómica, pelos corredores e pelas reuniões em petitcomitédas jornadas, ou seja, que Archimboldi era candidato ao Nobel naquele ano, uma coisa que para os archimboldistas de todos os lados era não só um motivo de imensa alegria como também um triunfo e uma vingança. A tal ponto que foi em Salzburgo, precisamente, na Cervejaria O Touro Vermelho, durante uma noite cheia de brindes, que se assinou a paz entre os dois grupos principais de estudiosos archimboldianos, isto é, entre a facção de Pelletier e Espinoza e a facção de Borchmeyer, Pohl e Schwarz, que a partir de então decidiram, respeitando as suas diferenças e os seus métodos de interpretação, juntar esforços e não voltarem a passar rasteiras uns aos outros, o que expresso em termos práticos queria dizer que Pelletier já não vetaria os ensaios de Schwartz nas revistas onde ele mantinha um certo ascendente, e Schwartz já não vetaria os trabalhos de Pelletier nas publicações onde ele, Schwartz, era considerado um deus.

 

A revista 60 Watts publica um conto inédito de Roberto Bolaño, datado de 1982 e entregue para um concurso de contos em 1983,o I Prémio Alfambra de Cuentos

 

A este propósito pode ler-se no Jornal de Notícias, sobre a relação de Roberto Bolaño com o escritor argentino Antonio di Benedetto:

 

 

«Graças a ter-se candidatado ao Prémio Alfambra com o conto "El Contorno del Ojo" - como conta o próprio Zuñiga em http://60watts.net>, Bolaño conheceu o escritor argentino Antonio di Benedetto (1922-1986), que venceu o segundo prémio do concurso e com quem o autor de "2666" iniciou então uma relação de amizade por correspondência.

 

Partindo da história real do jovem escritor que merece uma menção honrosa num prémio literário e descobre que entre os vencedores está um autor que admira, Bolaño escreveu depois outro conto, "Sensini", que faz parte do livro "Llamadas Telefónicas".

 

"El Contorno del Ojo", que tem como subtítulo "Diário do oficial chinês Chen Huo Deng, 1980", é, portanto, "a história por detrás da história" de "Sensini", que é o nome ficcional que Bolaño deu a Di Benedetto, autor de "Zama", entre outras obras.

 

Em "Sensini", o personagem homónimo que representa Di Benedetto considera de "primeira ordem" o conto do seu novo amigo e insta-o a não abandonar os concursos literários.

 

Hoje, não há dúvidas de que Bolaño persistiu, mas quando Di Benedetto morreu, em 1986, o chileno era ainda um desconhecido, sem imaginar a universalidade que recentemente a sua obra alcançou, ou que seria considerado, ainda que após a morte, o escritor que renovou a literatura latino-americana .»


 

Este blogue já devia ter lincado devidamente Eduarda Sousa, do absurdo, que começou a ler 2666 pouco antes do anúncio da publicação da edição portuguesa (Quetzal), e que dedica um post  à popularidade de Roberto Bolaño, onde chama ao autor Kurt Cubain e aponta para uma reportagem do La Nación:

 

«Numa altura em que a bolañomia chegou a Portugal, é importante guardar alguma distância, tentando perceber como é que surgiu esta súbita consagração do autor de 2666. O La Nación apresenta uma reportagem interessante, onde dá voz a Sarah Pollack, uma professora universitária que escreveu um ensaio sobre a construção do mito Bolaño nos Estados Unidos.»

 

 

bolano_27

Mais sobre mim

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2009
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
«Um livro contra o esquecimento que, nas suas qualidades e nas suas imperfeições, é uma profissão de fé no poder da literatura.» Bruno Vieira Amaral