Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

 

 

Em Soldados de Salamina o escritor Roberto Bolaño, enquanto personagem, fala às tantas dos seus amigos sul-americanos que desapareceram, embora continuem a existir porque ele se lembra deles e escreve sobre eles. Agora é a própria memória de Bolaño, que entretanto morreu, que está defendida no seu livro. Os ficcionistas têm um dever da memória?
Claro. Porque a literatura é memória. A literatura o que faz é resgatar os mortos. Há um poema de Thomas Hardy sobre a segunda morte, a morte definitiva, que é quando já não existe ninguém que se lembre de nós. Pois a literatura é uma batalha para que essa segunda morte não aconteça. É como Orfeu buscando Eurídice no inferno. É arrancar os mortos à morte. E é também como se os mortos se agarrassem a nós com todas as forças, para não morrer de vez. A literatura não pode ser outra coisa a não ser isto. Uma batalha contra o esquecimento, contra a morte. Porque as palavras não morrem. Porque a linguagem não morre.

 

A pergunta é de José Mário Silva, a resposta de Javier Cercas. A entrevista - a propósito do livro Soldados de Salamina (Asa, 2006)- publicada no suplemento 6.ª do Diário de Notícias, a 10 de Março de 2006]

 



por 2666 às 01:05
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1 comentário:
De Luís Paixão a 14 de Setembro de 2009 às 15:56
E que tal um passatempo, oferecendo o 2666, para nos guerrearmos por aqui?

Coisa catita, eu dou uma ideia: um parágrafo para emularmos a escrita do Bolaño, que tal?, que tal?, que tal?

LP


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«Um livro contra o esquecimento que, nas suas qualidades e nas suas imperfeições, é uma profissão de fé no poder da literatura.» Bruno Vieira Amaral
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