Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

 

 

«A pior coisa que se poderá dizer de um escritor é que não tem mundo. Já li muitos livros assim: a linguagem é perfeita, as metáforas são precisas, há silepses voluntárias, adjectivos inesperados, comparações maravilhosas, e personagens que racionalizam o que não deveria poder ser racionalizado; fazem-no com brilhantismo, tal como o autor brilhantemente ordena as palavras no papel, constituindo uma mónada quase perfeita. E, depois, o livro é igual a coisa nenhuma, porque nada nos diz sobre a precaridade, violência e beleza das nossas vidas. Sempre que, nos últimos tempos, abro um livro onde se lê na capa, em letras maiúsculas: romance, e encontro mais um escritor determinado a abrir outro guichet vanguardista pós-moderno, determinado a ser (muito) mais inteligente do que o leitor, a querer demonstrar tudo sem nos mostrar nada, torno a fechá-lo imediatamente: lições de filosofia disfarçadas de literatura não me interessam, da mesma maneira que não me interessa filosofia de pacotilha disfarçada de romance. E depois li "Os Detectives Selvagens", descobri Roberto Bolaño, e apaixonei-me outra vez pelos livros. Abri-lhe um lugar muito especial na estante, varrendo quase todos os outros autores que lá se encontravam para o chão. Bolaño não só tem mundo – o mundo inteiro como nos sorri, pisca o olho, e convida a entrar."Os Detectives Selvagens" é um livro grande, de 577 páginas na edição da Picador, e devora-se com voracidade incontrolável. É brutal, belo e enigmático, como a literatura devia ser. Da vida inquieta de Bolaño e da sua escrita tão carnal e tão inteligente na sua exultante demonstração de simplicidade tira-se uma conclusão apenas: os livros podem mudar a nossavida. Assim, reconciliei-me com os escritores: Bolaño é suficientemente grande para os redimir a todos.2666 com um aperto no coração, sabendo que essa obra será a última.

 

Fica aqui um dos meus excertos preferidos de "Os Detectives Selvagens, quando María Font encontra Ulises Lima e Arturo Belano (os detectives selvagens...) depois de estes regressarem do deserto de Sonora...


They shrugged their shoulders. Who knows, María, they said. I'd never seen them look so beautiful. I know it sounds silly to say, but they'd never seemed so beautiful, so seductive. Although they weren't trying to be. In fact, they were dirty, who knows how long it'd been since they'd showered, how long since they'd slept, they had circles under their eyes, and they needed to shave (not Ulises, because he never had to shave), but I would've kissed them both, I don't know why I didn't, I would've gone to bed with them both, fucked them until we passed out, then watched them sleep and afterward kept fucking. I thought: if we find a hotel, if we're in a dark room, if we have all the time in the world, if I undress them and they undress me, everything will be all right, my father's madness, the lost car, the sadness and energy I felt and that at moments seemed about to choke me. But I didn't say a word.»

 

João Tordo sobre Roberto Bolaño.



por 2666 às 12:01
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«Um livro contra o esquecimento que, nas suas qualidades e nas suas imperfeições, é uma profissão de fé no poder da literatura.» Bruno Vieira Amaral
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